A camisa ensangüentada e a comunicação com os mortos

As camisas ensangüentadas expostas pelas famílias em conflito no Brasil e no romance de Ismail Kadaré encontram eco em outros momentos da história. Elas aparecem como véu em Orestia, e foram utilizadas pelos habitantes de Creta como elementos fundamentais para a comunicação com aqueles que foram assassinados. Tinham, portanto, papel determinante na cobrança do sangue.

Os mortos que não repousam eram para os gregos parte de uma zona intermediária entre o mundo dos homens e o mundo dos deuses.

Como lembra Kadaré, os gregos acreditavam que uma "recuperação de sangue" não poderia ser realizada sem o consentimento do morto. Os gregos achavam, ainda, que um cadáver amputado de suas mãos e pernas era incapaz de enviar sinais para o mundo dos vivos. É por isso que, em Orestia, Clitemnestra corta os membros do seu marido, prenunciando o horror perpetrado séculos mais tarde por Lady Macbeth na peça de Shakespeare.

Finalmente, Ésquilo sustenta que, no caso de vendetas entre famílias, o direito não está nunca dos dois lados. Migra de um lado para o outro, ao sabor das mortes perpetradas.

Migra, por decorrência, de homem a homem, de família a família, de facção a facção, de país a país, num ciclo infindável.

 

 

 

 
 
 
   

 
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