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O livro de Kadaré me marcou, como já disse, ao mesmo tempo pelo drama intimista, familiar, e pela dimensão épica do relato. De forma semelhante, procurei arquitetar Abril Despedaçado na oposição entre estados diferentes. Entre a imobilidade e o movimento; entre o arcaísmo (o mundo da família Breves) e a modernidade (o que está além-fronteira); entre a ordem impingida pelo pai e a desordem anunciada por Pacu, o filho mais novo; entre o tempo visto como repetição circular da bolandeira e o tempo suspenso da relação amorosa entre Tonho e Clara. Junto com os companheiros de outras aventuras fílmicas, como o diretor de fotografia Walter Carvalho e o assistente de direção Sérgio Machado, optamos em filmar em locação, usando sempre que possível a luz natural contrastada do nordeste brasileiro. Como em Central do Brasil e Terra Estrangeira, também optamos por misturar atores experientes, como José Dumont, a não atores. O processo de casting conduzido por Sérgio Machado consumiu um ano de trabalho. Mais de 1500 pessoas foram entrevistadas. Apenas nove atores profissionais participam do filme. Todos os outros fazem sua estréia em Abril Despedaçado. O menino Ravi Ramos Lacerda (Pacu) vem do teatro de rua, Flavia Marco Antonio (Clara), do circo. Durante quase dois meses, atores e não atores se prepararam para os seus papéis nas próprias locações do filme. Viveram muitas vezes sem luz elétrica, aprenderam a lidar com animais, a operar a bolandeira, a cortar cana e fazer rapadura. Para fazer Abril Despedaçado, cada membro da equipe principal do filme rodou mais de 20.000 km em estradas precárias. A cada dia, era necessário mais de 200 km de carro para ir da pequena cidade onde se dormía até a locação. A temperatura média era superior a 40º. Por tudo isso, Abril Despedaçado foi um filme difícil de ser realizado. Mas sair fora daquele universo, ao término das filmagens, foi ainda mais difícil. A seguir, alguns elementos referentes à pesquisa sobre crimes de sangue no Brasil. E, também, algumas observações sobre a cobrança de sangue, a camisa ensangüentada e outros elementos simbólicos que aparecem no livro de Ismail Kadaré - e na tragédia grega.
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