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A
cobrança de sangue no Brasil
Escrito na década de 40, o livro Lutas de Família
no Brasil, de Luiz Aguiar Costa Pinto, nos permite entender como os
conflitos que aconteceram no nosso país se aproximam - ou se distanciam
- daqueles vividos na Albânia de Kadaré. Baseado na análise dos confrontos
entre as famílias Pires e os Camargos, em São Paulo, e entre os Feitosas
e os Montes, no Ceará, o livro prova que a vingança, no Brasil, se dá
na ausência do estado regulador.
É algo que surge de forma natural, espontânea, e que só deixa de existir
quando surge um poder mais forte e regulador. Essas pesquisas foram determinantes
no desenho dos personagens do pai e da mãe da família Breves, vividos
por José Dumont e Rita Assemany. Determinantes, também, na definição da
classe social a que pertencem. Os Breves são latifundiários ligados à
monocultura da cana de açúcar, que entraram em decadência depois do fim
da escravidão, no final do século 19. Os seus rivais, os Ferreiras são
latifundiários em expansão - criadores de gado.
Abaixo, alguns códigos estabelecidos por estas famílias na tentativa
de regular as cobranças do sangue, num trabalho de condensação realizado
por Sérgio Machado a partir do livro Lutas de Família no Brasil.
"A vingança é um dever irrestrito e indiscutível, de cuja obrigatoriedade
não se pode fugir, sob pena de banição. Neste caso, a desgraça não é
só individual, mas da família inteira".
"Lutar pela família é lutar pela própria sobrevivência. Fugir disto
seria infringir a regra, ir de encontro ao costume, ameaçar a própria
existência e o equilíbrio social".
"A hipertrofia do poder familiar e a fraqueza do poder público determinam
o problema das vinganças privadas no Brasil".
"O dever de vingança cabe naturalmente ao parente mais próximo
da vítima".
"Se o mais próximo dos parentes não cumprir o dever, o ressentimento
do defunto se voltará contra ele".
Sobre o papel da mãe
"É
de decisiva importância o papel das mulheres nessa conjuntura. É sempre
raro que a vingança se desencadeie sobre uma mulher, e esta, também,
só raramente leva a efeito uma represália em nome da solidariedade ativa
da família."
"Em
manter e estimular o ódio, (...), mantendo aceso o espírito da vindita,
é ao que se reserva a função das mulheres nas lutas de família."
"Se
no momento em que a violência deve desencadear-se não existirem adultos
para exercer a represália, às mulheres e aos anciãos vai caber a tarefa
de excitar os mais jovens a exercê-la um dia, alimentando o seu espírito
de vindita."
"As
mulheres usam de todos os recursos para estimular a luta e transformar
a família de comunidade em comunhão. Se a vingança é de sangue, expõe
as vestes ensangüentadas do defunto; vivem de luto permanente, não vão
à rua, lamentam noite e dia o morto, lembrando e exagerando suas boas
qualidades, excitando saudades, remorsos e desejos de vindita."
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