As rezadeiras, os cantos fúnebres e a origem da tragédia

Em todos os lugares em que filmamos Abril Despedaçado, encontramos rezadeiras que nos faziam ouvir cantos ancestrais - cantos para encomendar os mortos, cantos para celebrar aqueles que partiram. Vozes semelhantes, gravados por Beto Villares em Minas Gerais, fazem hoje parte da trilha sonora do filme, criada por Antonio Pinto (compositor da música de Central do Brasil).

A integração das cenas com rezadeiras no filme não foi aleatória - mais uma vez por influência de Ismail Kadaré. Nietzsche defendia a tese de que a tragédia grega tem origem nas festas dionisíacas. Já Kadaré afirma que a tragédia é o prolongamento de uma outra forma de ritual, o dos cantos fúnebres pronunciados por rezadeiras profissionais nos enterros.

Em seus livros Eschyle ou le Grand Perdant e Dialogue avec Alain Bosquet, Kadaré nos lembra que a fossa do morto e o espaço que a cerca são ao mesmo tempo a matéria-prima e a primeira cena do teatro trágico. O personagem principal, o morto, está entre dois estados distintos - a vida e a morte. Como não é mais capaz de falar de si, outros o fazem por ele. Esta incumbência cabe às primeiras atrizes profissionais que, segundo Kadaré, são justamente as rezadeiras. "Os seus lamentos pertencem ao território da realidade interpretada, como o coro antigo o faria mais tarde no teatro grego. Ainda em grego, a palavra "ator" se traduz por "hypokrites". É um adjetivo que cabe como luva às profissionais que choram um morto que não lhes pertence.

Essas reflexões dizem respeito a um ritual fúnebre ordinário. Mas, quando o morto é vítima de uma vendeta e o assassino é obrigado a participar do enterro e do almoço fúnebre de sua vítima, como acontece em Abril Despedaçado, estamos no campo da tragédia expressa na sua totalidade."

 

 

 

 
 
 
   

 
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