VARIETY
09 de outubro de 2001

Behind The Sun / Abril Despedaçado
(Brasil - França - Suíça)

Por DAVID ROONEY


Distanciando-se radicalmente do neo-realismo sombrio de seu aclamadíssimo longa-metragem de 1998, "Central do Brasil", o diretor Walter Salles volta às telas com "Abril Despedaçado", uma tragédia rural rica e lírica com um tom quase bíblico. Uma produção de primeira, com imagens deslumbrantes filmadas em locações magníficas nos sertões do nordeste do Brasil, o filme se insere claramente na linha comercial dos cineclubes de arte internacionais, com seu exotismo e sobrecarga sensorial de imagens poéticas, que lhe conferem uma dimensão épica. E embora isso possa contrariar os críticos mais puristas, até mesmo eles deverão ser forçados a reconhecer a qualidade magistral deste drama visualmente suntuoso, que deverá incendiar os principais mercados internacionais.

Adaptado por Salles, Sérgio Machado e Karim Aïnouz do livro homônimo do romancista albanês Ismail Kadaré, e transposto para o Estado brasileiro do Ceará, em 1910, a história guarda semelhanças com Crônica de Uma Morte Anunciada, de Gabriel García Márquez (que ganhou uma versão cinematográfica insossa filmada por Francesco Rosi, em 1987).

Fazendo lembrar a obra de Márquez, Salles acentuou os elementos mágicos e míticos desta fábula sobre um conflito ancestral, o acaso, o destino e o desejo de se romper um ciclo de morte e vingança.

Este ciclo inelutável vem ilustrado na repetição circular e infindável da bolandeira e das gigantescas engrenagens do engenho de cana de açúcar primitivo puxado por bois que provê o sustento da família Breves. A exemplo de "Central do Brasil", Salles emprega um menino inocente e ingênuo como narrador da história: o filho caçula da família Breves, Pacu (Ravi Ramos Lacerda).

Após a morte de seu filho primogênito, executado por um clã vizinho numa disputa ancestral pela posse da terra, o patriarca (José Dumont) espera pacientemente até que a camisa branca ensangüentada do filho morto torne-se amarelecida, o sinal de que chegou a hora de cobrar seu sangue. Ele envia então seu segundo filho, Tonho (Rodrigo Santoro), para vingar a morte. Tonho executa as ordens do pai numa seqüência longa, visceral e arrebatadora - sem dúvida a cena de maior destaque do filme - na qual persegue sua vítima em disparada em meio à caatinga.

Atormentado pelo peso de seus atos, Tonho pede permissão à família do morto para assistir ao funeral. É quando interpela o avô da vítima (Everaldo Pontes), pedindo-lhe uma trégua e o fim da violência. O ancião, entretanto, concorda com a suspensão temporária das hostilidades somente até a próxima lua cheia, dizendo a Tonho que sua vida agora está partida em duas: os primeiros 20 anos que já viveu e o pouco tempo que lhe resta para viver. A família amargurada do velho mais uma vez pendura uma camisa ensangüentada à espera de que fique amarelecida.

Observado atentamente por Pacu e sua mãe (Rita Assemany), Tonho enfrenta o dilema de ficar e enfrentar a morte ou fugir. Sua decisão é influenciada pela chegada à cidade de dois artistas de um circo itinerante, Salustiano (Luiz Carlos Vasconcelos) e sua enteada, Clara (Flavia Marco Antonio), que desperta em Tonho o desejo de conhecer o amor antes de morrer. Seu dever ancestral de honra, no entanto, demonstra ser por demais arraigado, obrigando-o a voltar para casa.

Bem mais lúgubre que a narrativa de Salles em "Central do Brasil" ou seu provocante road movie de 1995, "Terra Estrangeira" (co-dirigido por Daniela Thomas), esta fábula soturna desenrola-se num clima épico, com um estilo narrativo bastante acessível e toques de tragédia grega. Uma boa parte de seu impacto emocional e textura dramática resulta da inserção destes personagens fatídicos em paisagens vastas e abrasadoras, magnificamente fotografadas no formato widescreen em tons terrosos ricos e lustrosos, à luz natural do sol, pelo exímio diretor de fotografia, Walter Carvalho.

Com uma mistura imperceptível de atores experientes e não atores, o elenco dá vida aos personagens com uma intensidade feroz. Os olhos negros e expressivos de Santoro lhe dão a força necessária ao protagonista, enquanto Clara, interpretada por Flavia Antonio - uma atriz de circo sem experiência anterior no cinema - confere grande leveza, afetividade e vitalidade às suas cenas. O fato de o belo casal de protagonistas formar um par romântico atraente não será nada mau para a comercialização do filme.

A produção ultra bem acabada também se beneficia de uma trilha sonora elaborada, densa e complexa, cuja variada seleção de Antonio Pinto, integrando o aparente transe das rezadeiras, cantos fúnebres e temas folclóricos, contribui de modo eficaz para acentuar ainda mais a carga emocional do filme.


 


voltar     próximo Topo