LOS ANGELES TIMES
12 de dezembro de 2001

Vingança secular de uma família brasileira move "Abril Despedaçado"
A cativante parábola, produzida pelos cineastas do indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, "Central do Brasil", ilustra a força redentora do perdão.

Por KEVIN THOMAS, redator do TIMES

O diretor Walter Salles, o produtor Arthur Cohn e o diretor de fotografia Walter Carvalho, indicados para o Oscar por "Central do Brasil", reeditam sua parceria em "Abril Despedaçado", outro filme belo e angustiante tendo o Brasil como cenário. "Central do Brasil" é um filme mais caloroso e convidativo, porém o austero "Abril Despedaçado" revela-se uma parábola cativante sobre a futilidade da vingança e a força redentora do perdão e do amor.

"Abril Despedaçado" foi adaptado por Salles e seus co-roteiristas, Sérgio Machado e Karim Aïnouz, do aclamado romance homônimo de Ismail Kadaré, passado na Albânia. Com o aval de Kadaré, Salles transpôs o romance para os sertões do Brasil, "em algum lugar por detrás do sol", em 1910.

O filme é narrado por Pacu (Ravi Ramos Lacerda), um menino de aproximadamente 10 anos. Ele é o mais jovem dos três filhos de uma família que vive exclusivamente do plantio da cana de açúcar e que vem enfrentando dificuldades desde a abolição da escravatura. A vida para os irmãos e seus pais (José Dumont, Rita Assemany) resume-se à faina exaustiva do ciclo do plantio, corte e processamento da cana. O pai, sustentado por um orgulho familiar ferrenho, é um patriarca severo que lembra o diretor de uma prisão, onde o trabalho duro e a estrita obediência são as ordens do dia. No começo do filme, durante uma rara quebra na rotina diária da família, Pacu segue todo feliz montado sobre os ombros do irmão mais velho, Inácio, em meio a um canavial aberto, quando, de repente, Inácio é baleado e morto. Só então o público descobre que esta região do Brasil está subjugada pelo código da vendeta da região, a exemplo do que ocorre na Sicília. De início, não sabemos por que esta família, os Breves, estão envolvidos num círculo de vinganças mortais com o feudo vizinho dos Ferreira, mas é fácil adivinharmos que trata-se de uma disputa ancestral de várias gerações pela posse da terra.

Cabe ao irmão do meio, Tonho (Rodrigo Santoro), defender a honra da família e executar um parente dos Ferreira, o que, por sua vez, faz dele um homem marcado. Isso deixa a família Breves à beira da extinção, enquanto os Ferreira são não só mais numerosos, mas também rancheiros de gado mais prósperos. O momento mais significativo do filme ocorre quando o patriarca da família Breves e seu filho sobrevivente mais velho transportam seus fardos de açúcar até a cidade, mas os vendem por um preço bem abaixo do usual. O proprietário do armazém local explica que seus competidores contam agora com um equipamento de processamento movido a vapor, o que lhes permite produzir um volume muito maior de açúcar mais rapidamente, a preços mais baixos.
A menção à máquina é a primeira e única ligação com uma época presente na memória de pessoas vivas ainda hoje. Rodrigo entende que isso significa que o mundo moderno está ameaçando seu modo de vida. Ele, por sua vez, associa isso à admoestação excepcionalmente perspicaz de Pacu para que não execute um Ferreira. Até sua mãe atreve-se a comentar, melancolicamente, que "nesta casa os mortos comandam os vivos".

Quando o inexorável código impingido pelo pai de se limpar a honra da família pela vingança já se encontra enfraquecido, uma dupla de artistas itinerantes - a bela e jovem comedora de fogo, Clara (Flavia Marco Antonio), e seu sábio e corajoso padrasto, Salustiano (Luiz Carlos Vasconcelos) - surge por aquelas bandas. Inadvertidamente, eles terão um efeito transformador que irá mudar o destino dos irmãos Breves e de toda sua família.

A fotografia magnífica de Carvalho, a trilha de Antonio Pinto e uma equipe e um elenco dedicados sustentam admiravelmente este filme poético e implacável. Embora "Abril Despedaçado" deva certamente trazer reconhecimento internacional ao atraente Santoro, já um astro das TVs brasileiras, e à bela Flavia Antonio, na verdade, uma artista circense que atualmente cursa Teatro na Universidade da Bahia, é o pequeno Ravi Ramos Lacerda quem rouba a cena. Seu Pacu segue a perigosa tradição hollywoodiana dos atores-mirins incrivelmente precoces - e freqüentemente irritantes. Apesar disso, Ramos Lacerda tem uma naturalidade tão encantadora sob a direção inteligente de Salles, que transcende esta armadilha em potencial tornando bem sucedido seu filme mais desafiador.


 


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