THE NEW YORK TIMES
21 de dezembro de 2001

Fantasia Desafia Violência em Vendeta
Por A. O. SCOTT

Atenção, programadores de cinema: "Abril Despedaçado", o novo filme do diretor brasileiro Walter Salles, daria um bom programa duplo com "In the Bedroom", de Todd Field, lançado no mês passado e recebido com elogios pela crítica. O filme de Field, baseado num conto de André Dubus, explora, com uma simpatia velada, o ato de vingança de um pai diante do assassinato do filho. Sua força é decorrente da atitude impensável por parte de um médico civilizado de classe média do Maine, que sucumbe ao impulso atávico de responder à violência com violência. O assassinato final, embora terrível, é purificador e catártico, um modo de se reparar um terrível desequilíbrio na ordem moral.

Para todos aqueles seduzidos por esta visão - e ela é inegavelmente sedutora, graças à direção talentosa de Field e ao desempenho de Tom Wilkinson - "Abril Despedaçado" oferece um olhar de advertência sobre um mundo em que a violência é o princípio básico da ordem social, a regra em vez da exceção. Passado no árido sertão nordestino brasileiro, em 1910 (e baseado no livro homônimo do escritor albanês Ismail Kadaré), o filme retrata a espiral cruel da vendeta e do derramamento de sangue que consomem duas famílias rivais de plantadores de cana.

Nas paredes das casas de ambas as famílias, há galerias de retratos dos mortos em molduras ovais. Velas são acesas sob os retratos dos recém-executados e suas camisas ensangüentadas são expostas ao ar livre, de acordo com um costume que se traduz em misericórdia naquele universo. O próximo assassinato terá de esperar até o sangue da camisa amarelar, dando à próxima vítima - e ao próximo assassino - um mês de trégua antes do inicio da fase seguinte do ciclo.

Os dois clãs rivais, os Ferreira e os Breves, travam uma disputa secular pela posse da terra e pela honra; a família Breves, por conta de infortúnios e desavenças, parece estar perdendo. Seus adversários são mais prósperos e mais numerosos: o patriarca cego dos Ferreira mora num belo casarão com seus netos e suas esposas, enquanto os Breves foram reduzidos a uma única célula familiar, proprietária de um velho engenho de cana e uma junta de bois exaustos. O preço do açúcar está caindo, um sinal do progresso, afirma o comerciante que o compra. O filho mais velho dos Breves, Inácio, foi assassinado e, findo o período da trégua obrigatória, seu pai enfurecido (José Dumont) envia o filho do meio, Tonho (Rodrigo Santoro), para vingar a honra da família. Salles filma a seqüência assassinato como uma perseguição desfocada e esbaforida pela caatinga, seguida do terrível desespero de um homem ferido mortalmente, rastejando pela areia.

Embora habitem um mundo no qual (nas palavras da mãe de Tonho, interpretada por Rita Assemany) "os mortos controlam os vivos", o assassino testemunha seus atos com uma comoção e repulsa comparável ao desespero patético de sua vítima. Matar pode ser rotineiro, mas não é fácil.

Abril Despedaçado é basicamente contado através do ponto de vista do irmão caçula de Tonho; seus pais, talvez cientes de que sua vida seja descartável, nem se deram ao trabalho de lhe dar um nome. O Menino (Ravi Ramos Lacerda), como é chamado, tem um rosto redondo e sensível, emoldurado por alguns cachos de cabelo. Apesar de não guardar muita semelhança com nenhum de seus dois irmãos, sua expressão inocente e curiosa parece um presságio das faces endurecidas e emaciadas do pai. Ele adora Tonho e é o único membro de ambas as famílias a manifestar o desejo de que essa guerra sem sentido tenha um fim.

A premissa do filme é lúgubre, mas Salles, cujos dois filmes anteriores, "Central do Brasil" e "Meia-Noite", tinham como pano de fundo o universo miserável do Brasil urbano atual, tem um jeito de infundir um romantismo honesto e de coração aberto nas histórias mais terríveis. O diretor de fotografia, Walter Carvalho, encontra uma beleza austera nas paisagens desérticas e monocromáticas e nas faces macilentas dos plantadores de cana.

A dureza é aliviada com a chegada de dois artistas circenses - que se conectam com o filme da mesma forma que "La Strada", de Federico Fellini, e "Bye Bye Brazil", de Carlos Diegues - com seu circo mambembe itinerante. Clara (Flavia Marco Antonio), uma comedora de fogo sexy, dá ao menino um livro de histórias, e seu companheiro libertino, Salustiano (Luís Carlos Vasconcelos), dá-lhe um nome, Pacu. Clara torna-se uma figura mágica no mundo de fantasia do garoto - que a identifica à sereia do livro, que ele não é capaz de ler - e também o objeto do desejo físico de Tonho.

A mistura de violência crua com fantasia romântica tende ao sentimentalismo. Salles tem a confiança de um contador de histórias encantado demais por seu conto para se preocupar com a resistência do público, a qual vem a superar com desenvoltura.

É tentador classificar "Abril Despedaçado" como uma tragédia. Tragédias, entretanto, situam-se num universo específico, e este filme é sobre a tentativa de Pacu de libertar a si e ao irmão do fatalismo implacável que governa suas vidas.

O preço dessa luta é, como era de se esperar, devastador, mas não sem uma nota de otimismo redentor. E com isso fecha-se um círculo: "In the Bedroom" é um filme sobre um homem contemporâneo impelido pelas circunstâncias a uma visão de mundo brutalmente arcaica. "Abril Despedaçado", em contrapartida, é sobre o desejo honrado e reprimido de se viver num mundo moderno, numa região onde ainda mal se ouviu falar dele.

 




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