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Fiquei atraído pela qualidade mitológica do confronto ancestral narrado por Kadaré - este embate trágico entre um herói obrigado a cometer um crime que não quer e o destino que o impele à frente. Atraído por um mundo que antecede ao tempo, que antecede a palavra, que é feito de não ditos, de olhares. Um "huis-clos" a céu aberto, ao mesmo tempo intimista e épico. Tinha outros projetos na época, todos maiores em escala do que Abril Despedaçado. Mas não conseguia esquecer do drama daquele jovem cuja vida se partia em dois. Quando percebi, já havia começado a adaptação do livro. E abandonado os outros projetos aparentemente mais fáceis e acessíveis. Antes de tomar a opção definitiva de realizar Abril Despedaçado, um longo processo de pesquisa foi necessário. Esse processo nos levou a entender as características das guerras entre famílias no Brasil. Esses conflitos, geralmente conduzidos por latifundiários, acabaram definindo as fronteiras de alguns territórios do sertão nordestino, como é o caso do Sertão dos Inhamuns, no Estado do Ceará, palco da guerra entre as famílias Montes e Feitosa na primeira metade do século passado. Levei os resultados dessa pesquisa para Ismail Kadaré. Homem de inteligência aguda, Kadaré nos libertou da obrigação de seguir todos os passos dos personagens do livro. Era uma condição essencial para avançar, devido às diferenças culturais entre o Brasil e os fatos que Kadaré narra na Albânia - o Kanum, código que regulamenta os crimes de sangue naquele país, não tem equivalente no Brasil. Por sugestão de Kadaré, mergulhamos num segundo processo de pesquisa, que nos levou à tragédia grega e, mais especificamente, às peças de Ésquilo. O derramamento de sangue e as lutas fratricidas pelo poder são alguns dos temas que alimentaram o nascimento da tragédia grega. Aprendi que, até o século 7 D.C., os crimes de sangue cometidos na Grécia não eram julgados pelo Estado. Seu desenlace era determinado pelas famílias em conflito, que estabeleciam seus próprios códigos para a reparação do sangue derramado. Curiosamente, é na ausência do Estado que as lutas pela terra entre famílias também acabaram se desenvolvendo no Brasil. Voltava-se portanto ao Brasil, através do teatro grego. Ficava também claro o caráter universal do relato de Kadaré. Esta evidência me fez optar por um filme que tivesse uma qualidade fabular, que não precisasse estar fincado num espaço geográfico totalmente realista. Sim, esta história poderia se passar no início do século passado no sertão brasileiro, mas também em outras épocas e em outras latitudes. O romance de Kadaré trata do confronto secular entre os homens, da angústia frente à morte - e do desejo de ultrapassar este ciclo inelutável. A este núcleo central da história, procurei adicionar elementos que me são próprios. Como em Terra Estrangeira e Central do Brasil, optei por um narrador que, no meio daquele caos, ainda tinha conseguido preservar alguma lucidez e inocência (Pacu); como no documentário Socorro Nobre, preferi um desenlace que desse, de alguma forma, uma segunda chance a alguns personagens; finalmente, interessei-me em investigar a relação entre os irmãos da família Breves - Tonho e Pacu.
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